Caridade embrulhada em dignidade

Estou no trânsito, todos os dias, no mesmo semáforo da avenida, uma senhora de idade vende doces por entre os carros. Custa um real. No porta luvas há sempre um porta-troco especialmente preparado para este tipo de situação. Abro o vidro, “bom dia, tudo bem?”, dou uma nota de dois, pego um doce só.

Observando, minha filha pergunta: “Mas mãe, você deu dois reais, comprou dois doces, e pegou somente um.” Foi a oportunidade para mostrar a realidade, muitas vezes dura, na qual vivemos. Pode ser que aquele real a mais não nos faça tanta diferença, mas fará para quem dele depende, expliquei.

E tratamos de falar sobre as oportunidades que temos de sermos um pouco do que desejamos receber. Quando falamos simples, com aqueles que também são. Quando não precisamos falar de nossas conquistas e louros quando não conhecemos a realidade de quem nos ouve. Quando o erro de gramática não nos incomoda. Quando não subimos o vidro ao se aproximar uma criança carente.

Tiramos o nosso umbigo do caminho para que o próximo seja ele mesmo, sem ofensa, sem humilhar-se perante sua necessidade. Caridade não precisa de propaganda; ela vem acompanhada de olhar sincero e profundo, palavras de conforto e com o sentimento de importar-se pelo outro.

A dignidade deveria estar acima de qualquer conceito, ou pré-conceito. Foi assim que expliquei pra minha pequena que há várias maneiras de praticarmos a caridade, sem exacerbar ainda mais o peso que o outro já carrega. Os doces vendidos no semáforo, além do trabalho, eram a dignidade daquela mulher. E ficou fácil de entender que um real a mais pelo doce, era um tipo de caridade embrulhada em dignidade.

Speak Your Mind

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