Faculdade para quem tem família, dá pra fazer?

Seja pelo gosto de estudar e aprender coisas novas, seja para agregar na carreira ou para mudar de ramo, começar uma faculdade depois da família constituída coloca em discussão nossa capacidade de lidar com adaptações diárias. Filhos aumentam o desafio pra quem quer retomar os estudos, equalizar as contas e organizar os horários. Mas dá mesmo pra fazer? Por experiência própria afirmo: dá sim.

Acredito que em primeiro lugar, é preciso decidir. Decidir pela nova carreira, decidir pelo sonho, decidir por si mesmo. Depois é que a gente senta e organiza a vida. Quem vai cuidar das crianças? Que horas vou estudar? Serei o mais velho da turma? E lá vamos nós sofrer por antecipação e colocar mais empecilhos do que realmente encontraremos.

A participação da família

Família que se curte se ajuda. Uma conversa franca sobre sonhos e objetivos é um bom caminho pra conquistar a ajuda e a compreensão de todos. Quando um vai bem, todos vão. Segurar as pontas é decisão conjunta, para que não se lancem pedras e farpas mais tarde, com imaturidades como “se não fosse por mim você não conseguiria”, ou “eu me sacrifico pra você estudar”.. entre outras pobrezas sentimentais.. Não há riqueza maior nessa vida do que poder contar com a sua família na conquista de objetivos. Por outro lado, não há recompensa maior do que ver o seu ente amado realizando sonhos, até porque fazemos parte dele.

O horário de estudar

Não há como dedicar-se integralmente, como os alunos adolescentes que ainda não trabalham. Algumas madrugadas  de sono serão sacrificadas em detrimento de provas e trabalhos. Finais de semana também entram no pacote. O que é possível fazer é programar um calendário alternativo com estudos e lazer, intercalando família e faculdade. E completo: a maturidade ajuda no aprendizado, e você vai ser um dos melhores alunos da turma.

As finanças

Há hoje várias opções para quem quer estudar, desde financiamento estudantil à bolsas integrais. De qualquer maneira, há sempre um custo adicional de transporte, alimentação, material didático. Novamente cito o envolvimento familiar para que as contas sejam equalizadas e haja consenso entre essencial e supérfluo no apoio a quem volta estudar.

Sobre fazer ou não

Eu penso assim: o tempo vai passar, seja com estudo ou sem. E o tempo passa tão rápido.. nossa.. sabemos disso. E quando esse tempo passar, e olharmos para trás, vai sobrar o gostinho amargo do “se eu tivesse feito, já teria terminado”.. Me lembro do seu Jacob. Eu tinha 17 anos e acabava de sentar na primeira carteira de uma universidade. Na época ele tinha 72. Nosso professor de psicologia, sabiamente reservava deliciosos momentos da aula para as histórias do seu Jacob. Numa delas, ele nos contou sobre o sonho de um dia cursar uma faculdade, e terminou a aula, dizendo que nunca é tarde pra nada nessa vida. Hoje vejo que o sonho do seu Jacob influenciou a minha vida para sempre.

Minha história

Decidi fazer outra faculdade depois dos 30. Mãe solteira, trabalho, tarefas domésticas, cachorro, sem nenhum parente próximo na cidade (nenhum mesmo!). Ajustei horários e contas, e lá fui fazer cursinho. Já na faculdade, cursando Biomedicina no período da noite, me desdobrava pra dar conta de tudo. Nesse meio tempo a família aumentou, tínhamos a Paçoca e adotamos a Amora. A filha única passou a ser a mais velha, e um marido entrou para o conto de fadas. Mas o sonho ainda era a medicina, disponível apenas em cidades mais distantes.. E no terceiro ano da Biomedicina, lá pelo finzinho do ano e também da gestação, internada por um parto prematuro, chega na cidade a faculdade de medicina. Pois fiz a inscrição da cama do hospital, pelo celular; usei a nota do Enem e paguei com boleto virtual. E foi na mesma cama de hospital que soube da aprovação. Já comecei o curso de licença maternidade, pois o João nasceu no primeiro dia de aula. Final da história: retomei as aulas depois de três semanas da cesárea. Com aulas nos períodos da manhã, tarde e noite; no último ano de Biomedicina, primeiro de medicina, com um projeto de pesquisa em andamento, monitoria, uma pré-adolescente, um recém nascido, muitos sonhos e uma família incrível, que me apoiou desde sempre, que se orgulha e sonha junto comigo. Sem eles, eu jamais teria conseguido.

Posso afirmar que já chego na aula cansada, cedinho. Acordo super cedo, ajeito casa, café da manhã, neném, mascotes, uniformes, camas, lanches escolares, tudo; antes de sair às 6:50. Deixo a primogênita na escola antes e depois vou pra aula. Morro de sono, e na maior parte durmo sobre os livros quando estudo em casa. Tenho as cópias de materiais com baba, leite e marcas de mãozinhas. Leio um parágrafo e preparo uma mamadeira, leio mais um parágrafo e faço um coque de bailarina, um outro e acudo o chinelo que a amora levou de baixo da mesa de estudo. Hoje penso que nada pode tirar um sonho quando ele é sonho de verdade. Ás vezes eu paro e olho. Eu olho pra tudo e agradeço. Eu sou a pessoa mais sortuda desse mundo. E lá vou eu.. morrendo de sono, feliz da vida…

 

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