Nós sustentáveis

Sustentabilidade é a palavra do momento. É, em teoria, a utilização consciente dos recursos da Terra. Empresas, escolas e governos popularizam o conceito “sustentável” sem perceber que é preciso compreender nossa época e nossa mentalidade antes mesmo de implantar hábitos e atitudes que modificam nosso meio.

Se “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, como disse Lavoisier, nunca transformamos tanto nosso meio em virtude da nossa evolução. Nosso embate Progresso X Preservação surgiu quando os primeiros desajustes ligados ao desenvolvimento começaram a cutucar nossa idéia de infinitude dos recursos oferecidos pelo planeta. Enquanto o avanço tecnológico e científico das Revoluções Industriais nos trouxe conforto, saúde, conhecimento, a conquista do espaço e o controle dos genes, abriu as torneiras do uso desenfreado dos recursos que custeiam o abalo da nossa relação com o meio que nos sustenta. Nossa ultra necessidade de progredir tapou nossos olhos e nossa percepção: somos os mantenedores do presente e os exterminadores do futuro.

A história e a psicologia teorizam este conceito. Jacques Le Goff, estudioso da história das mentalidades, aponta que a partícula propulsora da economia viaja à frente do desenvolvimento mental, que por sua vez é mais lento que o desenvolvimento social. Criamos as máquinas conservando a mentalidade anterior a elas. Os automobilistas têm vocabulário de cavaleiros e os operários das fábricas do século XIX, a mentalidade de camponeses. Segundo Le Goff, a mentalidade decorre da conjuntura; ela é a coloração coletiva do pensar, agir e sentir de um povo. Passamos então a ter consciência da nossa inconsciência e a buscar manobras para baratear o custo da nossa personalidade “gastona”.

Pegamos o gancho do mundo capitalista e mercantilizamos a preservação do meio ambiente. Fundamos o mecanismo plausível, a saída inteligente para nossa falta de consciência. Nessa nova vertente de mercado preservar vale mais que destruir. Ações de empresas verdes valem mais, escolas de direito ensinam direito ambiental; são os créditos de carbono que abatem impostos. Descobrimos sim o conceito de sustentabilidade, mas monetarizando o equilíbrio dinâmico da nossa cadeia evolutiva.

Nossa interação equilibrada com o meio ambiente está longe de ser alcançada. Isso porque depende da mentalidade avançada que nossa característica humana não nos permite ter. Falta-nos utilizar os recursos oferecendo condições para que a natureza se regenere. Desta maneira chegaríamos mais perto de sermos ecologicamente corretos, economicamente viáveis, socialmente justos e culturalmente aceitos.

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