Histórias para o rei – Carlos Drummond de Andrade

Furto de Flor

Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estavafeliz. O copod destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.

Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplamos bem.

Sendo autor do furto, eu assumiria a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la ao jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, e a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me:

– Que idéia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!

Comments

  1. Prazer 🙂
    Pode linkar sim, claro!
    Fui “vizinha” do Carlos Drummond de Andrade, morava no prédio ao lado do dele, me lembro aos 5 anos andando na calçada na frente , ele na janela e meu pai dizendo que ele era o Carlos Drummond de Andrade! 🙂
    Beijocas,Lu.

  2. Que legal!
    Mas você nem chegou a tirar uma fotinho com ele??? rs..
    Obrigada pela visita! Volte sempre.

    Bjão,

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